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O Maxixe

A primeira grande contribuição popular do Rio de Janeiro para a música brasileira se deu na dança, por volta de 1870, através do Maxixe.

Na época, as danças da moda eram a polca e a mazurca, e o maxixe foi o resultado obtido pelos músicos de choro, adaptando o ritmo das músicas aos volteios e requebros de corpo que os mestiços, negros e brancos tentavam utilizar com a intenção de complicar as danças de salão. Desta forma, o maxixe passou a representar a versão nacional da polca importada da Europa no início do século XIX. Isso porque quando a polca surgiu, em 1845, apresentada pela primeira vez no Brasil no Teatro São Pedro, do Rio de Janeiro, ela indicava o nível social elevado do público a que se dirigia, pois nas cidades brasileiras daquela época ainda não existia povo, no sentido moderno da palavra.

O novo ritmo da polca foi criado nas gerações urbanas da Europa, após a Revolução Industria,l e no Brasil serviu para expansão da classe média. A polca, dos salões dos ricos e nas salas dos remediados tinha um ritmo do 2/4 em allegretto. O ritmo era coerente com o momento eufórico da economia, culminando com o superávit da balança comercial brasileira a partir de 1860.

Após algumas variações e adesões de estilos, a polca foi transformada em maxixe, passando pelo "lundu" cantado e dançado, através de uma estilização musical feita pelos conjuntos de choro, para atender ao gosto dos dançarinos das classes populares do Rio de Janeiro.

De acordo com Mário de Andrade (estudo "Cândido Inácio da Silva e o lundu"), os "lundus" cantados se transformaram em maxixes por volta de 1880.

As classes mais elevadas ficaram conhecendo a nova dança nos bailes carnavalescos, e nas cenas de canto e dança do teatro de revista.

O maxixe ganhou mais popularidade ainda como estilo de dança livre e exótica, quando começou a ser tocado nos bailes do povo, através dos sons do choro, e nos bailes das sociedades carnavalescas, ao som das bandas.

O maxixe era tocado no bairro da Cidade Nova no Rio de Janeiro, lugar não muito aconselhável para as damas, pois ali residia a classe social mais baixa da sociedade, de origens negras e mestiças. Era cultivado pelos homens do comércio, pelas mulheres de "vida fácil" e nos clubes carnavalescos. Logo, eté mesmo o ato de pronunciar a palavra "maxixe" perto das damas era tido como desrespeito. O nome maxixe era conhecido como mercadoria de segunda categoria. Talvez porque o maxixe comestível seja fruto de uma planta rasteira de cultivo comum nos quintais das casas da Cidade Nova, onde nasceu a dança.

Machado de Assis, que descrevia magistralmente cenas de polcas em suas obras, jamais usou a palavra maxixe em seus textos.

Mesmo no teatro, os autores das peças tinham que ter certo cuidado quando incluíam a dança em suas revistas. O primeiro ator a dançar maxixe no teatro para uma platéia de nível médio foi Vasques, que sabia imitar pessoas e foi levado ao teatro por seu irmão Martinho, que reconhecia no irmão um artista nato devido às danças, contorções e requebros que era capaz de fazer. O palco foi a realização de Vasques, que em 17 de abril de 1883 realizou no Teatro Santana, no Rio de Janeiro, um espetáculo com uma cena cômica de sua autoria "Aí, caradura!", sendo a maior atração os trechos cantados e dançados de maxixe.O personagem Caradura passou a ser um fenômeno social novo naquela época, e como ele mesmo dizia a palavra poderia ser definida como aquele que "tira partido de tudo e sabe levar a água ao seu moinho".

O caradura do maxixe significava, também, o desocupado incapaz de trabalhar, pois era "rapaz fino e de boa educação" que, "quer na alta, quer na baixa sociedade, aproveita todas as situações e não deixa passar camarão por malha". O caradura não pagava o alfaiate e não perdia festa de aniversário.

O maxixe foi evoluindo e ganhando, a cada dia, mais espaço na sociedade do Rio de Janeiro. Em 1892, a atriz Pepa Ruiz aparecia na peça "Tintim por Tintim", cantando o tango Mungunzá, e nessa época os maxixes ainda não haviam sido compostos por compositores mais sofisticados. Eram incluídos nas cenas cômicas e nas revistas dos teatros.

Em 1897, Chiquinha Gonzaga incluiu o seu tango brasileiro Gaúcho, na revista "Zizinha Maxixe", de Machado Careca. A partir daí, os maestros de teatro e compositores semi-eruditos sentiram que era chegado o momento de aproveitar o maxixe e criar um novo gênero de musica popular brasileira, para interessar aos milhares de compradores de partituras musicais para piano, pelo Brasil a fora.

O primeiro compositor a estilizar o maxixe foi o pianista Ernesto Nazareth, que se apresentava junto com Chiquinha Gonzaga. Ernesto era filho de uma família de classe baixa que morava no bairro Nova Cidade e sua primeira obra como compositor foi a polca-lundu "Você bem sabe".

Somente em 1905 o maxixe começou realmente a tomar conta dos salões do Rio de Janeiro e passou a ser aceito pelas famílias de classe média. Logo, o maestro de teatro José Nunes compôs o "maxixe aristocrático", cantado pela dupla de atores Pepa Delgado e Marzulo, na revista "Cá e Lá".

ELA

O maxixe aristocrático
Ei-lo que desbancará
Valsas, polcas e quadrilhas
Quantas outras danças há!

ELE

Nas salas de um pólo ao outro
Quem em dançar bem capriche,
Dentro em pouco dengoso,
Só dançará o maxixe!

E com os versos:

Nobres, plebeus e burgueses,
Caso é verem-no dançar!
Tudo acabará em breve
Por, com fúria, maxixar!

O autor previa a aceitação da dança em todas as salas de dança da cidade. A aceitação do maxixe como dança foi facilitada, na Europa, pela euforia urbana surgida com a utilização, na indústria imperialista, das matérias-primas roubadas de países da Ásia e África. Logo, em meio às novidades importadas que invadiam os países europeus, houve um fato curioso em Paris quando em 1906, o maxixe brasileiro foi apresentado no Teatro Marigny, nos Champs- Élysées, pelas dançarinas Rieuse e Nichette. Dois anos mais tarde, em Portugal, houve a apresentação de dois brasileiros o cançonetista Geraldo Magalhães e Nina. Pouco tempo antes o maxixe havia sido lançado na Europa através da grande novidade: o disco.

No mesmo ano de 1906, o maior sucesso do carnaval foi o tango-chula de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre "Vem cá mulata", que era um maxixe datado de 1902.

O maxixe virou assunto da moda no início do século XX. Um fracassado dentista baiano, Lopes Amorim, que perdeu todo o dinheiro no jogo, mudou-se para o Rio de Janeiro para tentar vida nova. Devido ao requinte de suas roupas, ficou sendo conhecido como Duque. Duque foi para Pari, onde o tango começava a tomar conta dos salões e, precisando ganhar dinheiro, aproveitou seus dons de exímio dançarino que era e resolveu dar aulas de tango, com quase todos os passos do maxixe carioca. A Cidade Nova então, chegava a Paris com o tango-maxixe de Duque, com a novidade de debruçar o cavalheiro sobre a dama. Muito famoso em Paris, Duque conheceu a atriz de teatro carioca Maria Lino, que lhe fora apresentada pelo cônsul do Brasil naquela cidade. Em um café, Duque tirou Maria Lino para dançar o maxixe não ensaiado e o público fez roda ao redor dos dançarinos. O sucesso foi tamanho que o proprietário do café ofereceu-lhes um contrato. E uma famosa dupla foi formada. A fama do casal ultrapassou as fronteiras, e eles foram dançar em Berlim e Londres. Em seguida, Duque ficou novamente sem par até que conheceu a dançarina parisiense Gaby. Juntos, dançaram para o Rei Jorge V, da Inglaterra, para o presidente da República da França e, finalmente, para o Papa Pio X, em Roma, em 1913.

Em artigo na Revista Fon-Fon, do dia 4 de abril de 1914, o cronista Álvaro Moreyra comenta o assunto dizendo que "...o maxixe - embora proibido no Brasil pelo Cardeal Arcoverde - constituía um estado d'alma em Paris". O maxixe virou tema literário, em conferência do poeta Jean Richepin na Academia Francesa.

O maxixe, após sair dos bailes da Cidade Nova, no Rio de Janeiro e de ter passado pelos salões europeus e Nova York, chegou ao seu fim na década de 30 tendo sido mais um a ser vencido pela concorrência estrangeira. O Brasil foi incapaz de continuar a impor o maxixe no mercado nacional e internacional. O desaparecimento do maxixe foi tão rápido que em "O Jornal", do Rio, no dia 6 de janeiro de 1928, o redator de carnaval Arlequim intitulou uma matéria com as seguinte palavras: 'O Carnaval se aproxima - é necessário fazer uma campanha em benefício do maxixe brasileiro".


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